Um pouco do grande FC Porto.

Fevereiro 27, 2010 on 12:00 am | Em MUNDO |

Os anos 70 aproximavam-se do fim. Aos poucos, o 25 de Abril criava um novo pulsar que devolvia a vida o soturno Portugal de Salazar. Nas Antas, o FC Porto, altivo, jogava como “milhafre ferido na asa” ou “como quem moía um sentimento”. Um jeito fechado que carpia a mágoa de já não se sagrar campeão nacional há 19 anos, desde a longínqua temporada de 58/59, quando Bela Gutmann, depois de ter sido Otto Bumbel a começar o ano, levara o clube á conquista do titulo.

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Na Europa, enquanto o Benfica vivia das glórias dos anos 60, os homens das Antas nunca atingiam grande projeção internacional, apesar de, desde a sua estreia nas provas da UEFA, em 56/57, apenas por seis vezes terem estado ausentes dos palcos europeus. Na época 69/70, o clube “tocou no fundo”, brigando por um modesto 9º lugar no campeonato, a 26 pontos do campeão Sporting. A consciência social do futebol portista revoltou-se perante tal cenário…

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A virada da década de 70 para a de 80 promoveria uma profunda mutação geográfica na ordem do futebol português, com o fim do filão colonial que alimentou o Benfica ultramarino dos anos 60 e parte dos 70 (Eusébio faria, em 74/75, a sua última época no Benfica, exatamente no mesmo ano em que Gomes realizou a sua primeira no FC Porto). Este é o período, também, da “canonização” desportiva de José Maria Pedroto, o homem que criou a nova ideologia do FC Porto “produto regional” que, construído a partir das suas bases nortenhas, desafiou, sem medo, o poder do Terreiro do Paço…

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Vivia-se o auge da lenda do “Zé do boné”, profeta do Boavistão 1975 e, depois, mentor, ao lado do “companheiro de trincheira” Pinto da Costa, do “FC Porto da inteligência e da esperteza”, para onde levou quase toda a estrutura que sustentara o sucesso axadrezado: os fieis adjuntos Morais e Hernâni Gonçalves, os jogadores Taí e Celso, o roupeiro, o administrador do gramado e até o..cão Kimba. Em pouco tempo, o FC Porto tornou-se uma máquina de ganhar títulos, aproveitando, fora das quatro linhas, a atmosfera regionalista que melhor potencializou os seus feitos clubísticos.

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Insaciável e astuto, Pedroto ambicionava acrescentar dimensão internacional aos títulos nacionais. No passado, moravam algumas ténues aproximações ao Olimpo europeu, mas o fosso que o separava da elite europeia parecia intransponível. Ao mesmo tempo, o eterno complexo de perseguição também se estendia além-fronteiras. Em 1966, na extinta Taça das Cidades com Feira, o FC Porto caiu frente ao Bordeaux, após empate nos dois jogos, por … cara ou coroa! Era esse o obsoleto sistema de desempate.

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Para tornar o azar maior, conta-se que, no primeiro lançamento, a moeda ficara parcialmente enterrada no campo, mas com ligeira tendência em cair para o lado azul. O árbitro decidiu lançá-la de novo ao ar, e a sorte sorriu aos franceses. Na mente de Pedroto, estava se criando um embrião do Barcelona no território lusitano. Comparando a história dos dois países da Península Ibérica criou-se a tese de que o Real Madrid estava para Espanha como o Benfica para Portugal, revendo-se o FC Porto no Barcelona, a sublimação épica do povo catalão.

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Curiosamente, a primeira grande vitória internacional do FC Porto surgiu em 1972, frente ao Barcelona, então, tal como os “azuis e brancos” em relação a Lisboa, na sombra dos gigantes de Madrid. Depois de ganhar nas Antas por 3-1, o FC Porto sofreu muito no Nou Camp até que emergiu uma jovem promessa, campeão júnior três anos antes, dono de uma técnica quase arrogante, que trocou os olhos aos catalães e deu o gol da vitória a Abel. Chamava-se Oliveira, sonhava imitar George Best e, com ele, o FC Porto descobriu um novo líder em campo.

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Na forja, então com 19 anos, estava, também, um menino que fazia gols como respirava: Fernando Gomes, o bota de ouro que, no anos 80, fez bater como nunca o coração dos portistas e … da torcida feminina. Em Setembro de 1977, ambos estiveram juntos numa noite de sonho, como as Antas nunca antes haviam presenciado. Inspirados, os homens de Pedroto esmagaram o poderoso Manchester United por 4-0, com três gols do meia brasileiro Duda.

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O jogo de Old Trafford seria, no entanto, uma guerra. Bombardeados desde o apito inicial com bolas para cima da área, os portistas tremeram. O Manchester chegou a 3-0 (com todos os gols precedidos de falta, clamou Pedroto), até que, veloz, explodiu um homem que o mestre lançara do banco e de quem os ingleses nem sabiam pronunciar o nome: Seninho, que, qual lebre em fúria, engatou longos sprints, fez dois golos e salvou o jogo. No final, o nome do FC Porto ecoou, pela primeira vez, na Europa da Bola.

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Na rodada seguinte, o primeiro jogo com o Anderlecht, já em 1978, foi disputado sob um enorme dilúvio que obrigou o árbitro a interrompê-lo ao meio para, na noite seguinte, começá-lo. Esgotados, os azuis venceram por 1-0, gol de Gomes. Em Bruxelas, logo o jogo se complicou quando o suspeito árbitro suíço apontou um penalti que fez rir os belgas. Ao perder a primeira partida o FC Porto desanimado, caiu por 3-0 e disse adeus à Europa.

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Em 78/79, com as “quinas” de campeão nacional estampadas no ombro, aconteceu o pesadelo grego. Em Atenas, frente ao AEK treinado por Puskas, o FC Porto foi goleado por 6-1! Durante duas semanas, todos diziam acreditar que era possível ganhar por 5-0 nas Antas. Começou o jogo abertamente no ataque, mas, no contra-ataque, os gregos fizeram um gol e calaram as Antas. Em fúria, os portistas lançaram-se para cima do meio campo grego que, durante o resto do jogo, nunca mais voltou a respirar. Chegou-se a 4-1, mas o milagre não aconteceu…

2 Comentários »

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  1. Grande artigo. Belíssima e ajustada crónica. Fico à espera da continuação…
    Parabéns e Viva o Grande F. C. do Porto!

    Comentário de Armando Pinto - Longra — Março 8, 2010 #

  2. Armando, fique à vontade e continue a história do FC Porto para seus irmãos brasileiros.

    Comentário de Edu Lima — Março 9, 2010 #

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